Existem sonhos que estão à distância da vontade própria.
Devem ser muitas as pessoas cujo quotidiano não é representativo das suas reais aspirações. Muitas, com impedimentos e constrangimentos válidos. Outras, nem tanto; carecem apenas da vontade de mudar certos aspectos - uns maiores que outros - da vida quotidiana. Temos o poder de transformarmos os nossos hábitos e - consequentemente - as nossas vidas.
A escrita pode ser uma dessas transformações. Desde muito novo que guardo o desejo de viver unicamente da escrita. Não por necessidade de fama, ou popularidade no meio literário, mas pelo prazer de poder partilhar narrativas. Histórias. E quando transformamos o acto de escrever num hábito, ganhamos o poder de utilizar a escrita como parte de nós. O valor desta habilidade, é incalculável.
O Bon Vivant
domingo, 23 de junho de 2013
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Crónicas 100613
Vivemos depressa demais. Sem tempo, em stress, sem reflexão. Os momentos não existem, esmorecem, enquanto os anos passam pelas nossas rotinas.
Acordamos à mesma hora e - como disse Bukowski - somos forçados a cagar, mijar e comer antes de enfrentarmos uma jornada de oito horas de trabalho. Cagamos à pressa, mijamos à pressa e enfardamos o que conseguimos num estômago ainda entorpecido pelo sono. Na televisão, as notícias escorrem desgraças e efemérides que acabam por não ser mais do que imagens e sons, sem nexo, sem linha narrativa. Nada de novo; a violência do costume, as palavras do costume.
Não conseguimos acompanhar um mundo que não espera por nós. Tudo é novidade e, ávidos de consumo, compramos aquilo que nos falta sentir. Mas compramos os sentimentos mais ranhosos que há por aí; são efémeros, vão-se num instante. Depois, voltamos à impaciência característica dos filhos únicos: ou pedem por mais, ou resignam-se numa birra que pode chegar a demorar um dia.
Gostava de largar o meu nihilismo numa esquina de um bar. Fazia-me de esquecido. Bebia uns copos, e durante uma das mijas nocturnas, largava-o lá. Já agora, padecendo de algum tempo - e é tempo o que aqui se discute - livrava-me da melancolia e misantropia. A primeira fatiga-me, a outra atormenta-me. Ambas me queimam o tempo.
E vivemos depressa de mais. Hoje, então, o dia passou a correr. Nasceu dia de Portugal e pôr-se-á com o pesar de uma nação adormecida; não pela hora tardia nem pela imposição da noite, mas sim pela falta de atenção ao pormenor do que nos rodeia. Pois está claro então que depressa e bem, não há quem.
Eu, como qualquer um dos impacientes, tenho pouco tempo para estas trampas. Stresso-me com estas discussões do aproveitamento e usabilidade do tempo que temos para nós. Porém, dá-me que pensar que, o tempo perdido a discutir esta questão, é isso mesmo: tempo perdido.
Acordamos à mesma hora e - como disse Bukowski - somos forçados a cagar, mijar e comer antes de enfrentarmos uma jornada de oito horas de trabalho. Cagamos à pressa, mijamos à pressa e enfardamos o que conseguimos num estômago ainda entorpecido pelo sono. Na televisão, as notícias escorrem desgraças e efemérides que acabam por não ser mais do que imagens e sons, sem nexo, sem linha narrativa. Nada de novo; a violência do costume, as palavras do costume.
Não conseguimos acompanhar um mundo que não espera por nós. Tudo é novidade e, ávidos de consumo, compramos aquilo que nos falta sentir. Mas compramos os sentimentos mais ranhosos que há por aí; são efémeros, vão-se num instante. Depois, voltamos à impaciência característica dos filhos únicos: ou pedem por mais, ou resignam-se numa birra que pode chegar a demorar um dia.
Gostava de largar o meu nihilismo numa esquina de um bar. Fazia-me de esquecido. Bebia uns copos, e durante uma das mijas nocturnas, largava-o lá. Já agora, padecendo de algum tempo - e é tempo o que aqui se discute - livrava-me da melancolia e misantropia. A primeira fatiga-me, a outra atormenta-me. Ambas me queimam o tempo.
E vivemos depressa de mais. Hoje, então, o dia passou a correr. Nasceu dia de Portugal e pôr-se-á com o pesar de uma nação adormecida; não pela hora tardia nem pela imposição da noite, mas sim pela falta de atenção ao pormenor do que nos rodeia. Pois está claro então que depressa e bem, não há quem.
Eu, como qualquer um dos impacientes, tenho pouco tempo para estas trampas. Stresso-me com estas discussões do aproveitamento e usabilidade do tempo que temos para nós. Porém, dá-me que pensar que, o tempo perdido a discutir esta questão, é isso mesmo: tempo perdido.
domingo, 9 de junho de 2013
Crónica
Anda por aí, em Portugal, um espectro. O espectro da poesia.
Por mais que lhes enfiem o epíteto de pequeno nicho os leitores/consumidores de poesia fazem parte, consciente ou inconscientemente, de uma certa elitização do mundo dos versos. A falta de projecção destas obras, torna-as menores. Mais pequenas do que um romance sazonal, assente durante algumas semanas nos escaparates de uma qualquer livraria à mercê daa leis economicistas do mercado.
Nós, a geração rasca, nascida nos anos oitenta, criados pela cumplicidade dos anos noventa, perdemos o hábito do poema. A seguir ao fervor que se instalou após a revolução dos cravos, lentamente, os versos foram deixando de ter lugar nos meios literários. Desde então, a meu ver, pequenas elites intelectuais têm brotado como única forma de sobrevivencia da poesia Portuguesa: tão grande em tempos, mas num declínio cada vez mais inevitável.
Tão pouco é um mal que se confina somente à poesia. A literatura, em geral, padece deste problema em Portugal. Apesar de mais alfabetizados, com um acesso à informação maior e criterioso, deixámos de ler. Os jovens, na sua maioria, preferem os filmes. Ler implica perder tempo, requer prática e concentração. Elemente necessários, mas em vias de extinção numa sociedade moldada pela dispersão da informação, pelo défice de atenção, pela fragmentação do próprio raciocínio.
Contudo, fiquei contente quando encontrei no Expresso de hoje uma crítica literária, muito positiva, ao novo livro do Miguel Manso. É uma esperança pensar que pode haver espaço para as novas mentes literárias.
Por mais que lhes enfiem o epíteto de pequeno nicho os leitores/consumidores de poesia fazem parte, consciente ou inconscientemente, de uma certa elitização do mundo dos versos. A falta de projecção destas obras, torna-as menores. Mais pequenas do que um romance sazonal, assente durante algumas semanas nos escaparates de uma qualquer livraria à mercê daa leis economicistas do mercado.
Nós, a geração rasca, nascida nos anos oitenta, criados pela cumplicidade dos anos noventa, perdemos o hábito do poema. A seguir ao fervor que se instalou após a revolução dos cravos, lentamente, os versos foram deixando de ter lugar nos meios literários. Desde então, a meu ver, pequenas elites intelectuais têm brotado como única forma de sobrevivencia da poesia Portuguesa: tão grande em tempos, mas num declínio cada vez mais inevitável.
Tão pouco é um mal que se confina somente à poesia. A literatura, em geral, padece deste problema em Portugal. Apesar de mais alfabetizados, com um acesso à informação maior e criterioso, deixámos de ler. Os jovens, na sua maioria, preferem os filmes. Ler implica perder tempo, requer prática e concentração. Elemente necessários, mas em vias de extinção numa sociedade moldada pela dispersão da informação, pelo défice de atenção, pela fragmentação do próprio raciocínio.
Contudo, fiquei contente quando encontrei no Expresso de hoje uma crítica literária, muito positiva, ao novo livro do Miguel Manso. É uma esperança pensar que pode haver espaço para as novas mentes literárias.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Poesia na blogosfera
O voo das galinhas não é muito diferente do voo das horas;
apesar das tentativas falhadas
nunca aceitam a sua natureza limitada.
A hora é a medida indistinta do dia humano,
a galinha cobarde da imortalidade divina.
O mais distante acontece com a graça do impossível, enquanto o presente se desfaz, flui.
O tempo não se mede,interpreta-se:
assim o ensina a música
Lauren Mendinueta
Existem muitos blogues dedicados à poesia escrita em Português. Uns, terrivelmente amadores, chateiam e - muito provavelmente - afastam qualquer ávido leitor de posteriores incursões nestes meandros. Contudo, existem os blogues repletos de surpresas, autores frescos, novos versos; tudo isto, à distância de um clique. Ora aqui n'O Bon Vivant prezam-se, entre muitas outras coisas, poetas e poetisas de qualidade espalhados por essa imensa blogosfera.
Nas minhas deambulações cibernéticas mais recentes fui para a um blog muito interessante:
http://theresonly1alice.blogspot.pt/
Aqui encontramos o mundo de Maria Sousa. Com poemas intensos, alguns muito bem conseguidos, podemos encontrar, a meu ver, algumas reminiscências de Sophia de Mello Breyner. Os versos fluem, as palavras perfuram-nos e deixam-nos suspensos; imersos no pensamento. Gostei particularmente deste:
a janela não tem mais paisagem
e com a respiração tornou-se baça
é como se fosse noite
com vozes presas na respiração
digo-te:
quando o silêncio está demasiado cheio
a primeira coisa a fazer é tapar os espelhos
maria sousa
Despeço-me com a banda da sonora deste post.
apesar das tentativas falhadas
nunca aceitam a sua natureza limitada.
A hora é a medida indistinta do dia humano,
a galinha cobarde da imortalidade divina.
O mais distante acontece com a graça do impossível, enquanto o presente se desfaz, flui.
O tempo não se mede,interpreta-se:
assim o ensina a música
Lauren Mendinueta
Existem muitos blogues dedicados à poesia escrita em Português. Uns, terrivelmente amadores, chateiam e - muito provavelmente - afastam qualquer ávido leitor de posteriores incursões nestes meandros. Contudo, existem os blogues repletos de surpresas, autores frescos, novos versos; tudo isto, à distância de um clique. Ora aqui n'O Bon Vivant prezam-se, entre muitas outras coisas, poetas e poetisas de qualidade espalhados por essa imensa blogosfera.
Nas minhas deambulações cibernéticas mais recentes fui para a um blog muito interessante:
http://theresonly1alice.blogspot.pt/
Aqui encontramos o mundo de Maria Sousa. Com poemas intensos, alguns muito bem conseguidos, podemos encontrar, a meu ver, algumas reminiscências de Sophia de Mello Breyner. Os versos fluem, as palavras perfuram-nos e deixam-nos suspensos; imersos no pensamento. Gostei particularmente deste:
a janela não tem mais paisagem
e com a respiração tornou-se baça
é como se fosse noite
com vozes presas na respiração
digo-te:
quando o silêncio está demasiado cheio
a primeira coisa a fazer é tapar os espelhos
maria sousa
Despeço-me com a banda da sonora deste post.
Olá, mundo!
Saudações companheiros e companheiras da boa vida.
Este é o texto inaugural de um blog que se assume, desde logo no título, como sedento de sabores, aromas, poemas, filmes, livros, entre outras coisas. As coisas boas da vida. Aqueles segredos guardados no balcão de um qualquer café, numa qualquer cidade, a ouvir a música certa, no tempo certo. Um bom vinho entre duas garfadas de qualquer coisa deliciosa. Quero partilhar esses momentos. As descobertas: gastronómicas e culturais que preenchem os meus dias. Deu-me para isto, vá se lá saber como e porquê.
Hoje, antes de criar o blog, andei a navegar por alguns blogues de culinária portugueses e fiquei um pouco frustrado com a repetição do mesmo esquema em vários autores. Quase todos se limitam a colocar receitas de pratos com pequenas sinopses descritivas do processo. Listagens de ingredientes e fotos. Fazem-me lembrar os milhares de motores de pesquisa de receitas espalhados pela web. E não é isso que me atrai num blogue. Porém, já em desespero dei de caras com o Cinco Quartos de Laranja. É um excelente blogue, repleto de receitas. Mas quase sempre acompanhado por textos explicativos, alguns até gastronomicamente interessantes e informativos, onde se evidencia um verdadeiro prazer na escrita e na confecção dos pratos. Fiquei de imediato siderado neste livro de receitas tão humanizado.
E, cheio de pompa e circunstância, venho partilhar uma primeira sugestão culinária: Mousse de Chocolate com Café e Cardamomo. Apesar de, ainda, não ter posto em prática - até porque, como se vai perceber com o tempo, os doces não são o meu forte e descobri-a hoje - pareceu-me uma receita deliciosa e perfeita para sobremesa.
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